sábado, 6 de novembro de 2010

pretenso

pretendo um dia ser rei.

serei possuidor de quantas coisas meu coração puder
e não quererei ser deus
nem ter comando sobre nada;
     verdade,
     serei possuído de todas as coisas,
mais nada.

pretendo com toda a minha inteligência e o meu afeto.

cuspirei na política,
vomitarei de cima dos prédios meu horror
sobre tudo,
serei sísmico e matutinamente
     rígido,
     como escovar os dentes.
mas não terei pretensões nenhumas senão
de pretenderem
a mim.

abrirei os braços,
gritarei,
como às cenas dos filmes românticos
e adolescentes,
     - será o filme mais adolescente do mundo.
     marcar-lhe-á o pincel de frida khalo,
mas será leve como a cecília.
será quase um
orgasmo

o nosso reino infantil.


     não quererei fazer guerra
nem terei estrategistas,     cuspirei sobre tudo isso.

por favor, cuspa comigo! num sinal de nojo pelas coisas ligeiras.
     elas todas morrerão.


não serei socialista
nem parlamentarista,
nem presidencialista,

nem serei demagógico,
não eu, se for rei.

     não serei qualquer coisa
que não rei.

e tu estarás livre,
     de todo livre: mas só para brincar.
poderás também correr,
sejam campinas,
sejam lírios e pastos,     poderás te embriagar às vezes
corriqueiramente
e ser feliz,

     só não quererás matar.

eu terei apenas o coração e este poderá apodrecer.
então deveremos cuidar,
juntos,
como se fosse possível,

     e tornar-se-á.

e, quando abdicar ao trono,
já cansado dos dias,
governarás tu no meu lugar, e não mandarás em ninguém.
     as pessoas curvar-se-ão e tu te curvarás a todas elas,
     e ninguém se enforcará.
   
     depois deus vai descer e levá-los consigo.

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