quinta-feira, 25 de novembro de 2010

brecha

- espera.

     fica mais um pouco.

- pra quê?
- não sei. sozinho eu sou muito diferente. mas eu não quero estar
sozinho,
     fica comigo!

- não sei.

     eu também sou diferente.

- por isso. junto a gente é outro.
fica um pouco mais.



     - vou ter que ir, a algum momento.
          - então já terei dormido.
- e quem vai fechar o portão?



- não sei. deixa aberto. quem sabe você volta.
- e se eu não voltar?
- talvez eu sonhe.

- ...

- talvez eu mude e tudo mude enquanto eu durmo.
talvez eu não precise mais que você esteja perto para eu ser
     igual. não daí pra adiante.
     espera um pouco mais?

- mais.

- ...
- ...
- ...

- não sei.


          não sei.

     ...
...

     - ...

- não sei

     ...deixa eu te cuidar?
- não sei. (dentro de mim é tudo esquisito.)
     - deixa eu entender?
     - não dá.
- deixa.
     - não dá.
          - então dorme.

     quem sabe eu veja o que sonha,
     quem sabe eu me explique também,
     eu também não sei de nada.
          ...

-

?
     ?


dorme também?
     - do teu lado?
- comigo.

.
.
...

     ...


     - boa noite.

domingo, 21 de novembro de 2010

comparação

pra mim é tão natural que haja diferenças
que eu nem avalio as coisas através de diferenças,
só por igualdades.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

sintaxe

maria está pensando em niguém.
"ninguém gosta de mim."

mas depois de dez minutos prevê o holocausto no mundo.
assina o papel xerocado e despacha

     pretas galinhas sem quê.

dorme tranquila,
quase serena;
não diz:

"...por que eu não morri ontem!"

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

haikai extenso demais

se eu pudesse emancipar-me de mim mesmo,
se eu ousasse.
se eu livrasse do egoísmo,
se eu ousasse.

se eu pudera.
se eu vazasse a estratosfera.

se eu voasse.
     se eu pudera.

sábado, 6 de novembro de 2010

pretenso

pretendo um dia ser rei.

serei possuidor de quantas coisas meu coração puder
e não quererei ser deus
nem ter comando sobre nada;
     verdade,
     serei possuído de todas as coisas,
mais nada.

pretendo com toda a minha inteligência e o meu afeto.

cuspirei na política,
vomitarei de cima dos prédios meu horror
sobre tudo,
serei sísmico e matutinamente
     rígido,
     como escovar os dentes.
mas não terei pretensões nenhumas senão
de pretenderem
a mim.

abrirei os braços,
gritarei,
como às cenas dos filmes românticos
e adolescentes,
     - será o filme mais adolescente do mundo.
     marcar-lhe-á o pincel de frida khalo,
mas será leve como a cecília.
será quase um
orgasmo

o nosso reino infantil.


     não quererei fazer guerra
nem terei estrategistas,     cuspirei sobre tudo isso.

por favor, cuspa comigo! num sinal de nojo pelas coisas ligeiras.
     elas todas morrerão.


não serei socialista
nem parlamentarista,
nem presidencialista,

nem serei demagógico,
não eu, se for rei.

     não serei qualquer coisa
que não rei.

e tu estarás livre,
     de todo livre: mas só para brincar.
poderás também correr,
sejam campinas,
sejam lírios e pastos,     poderás te embriagar às vezes
corriqueiramente
e ser feliz,

     só não quererás matar.

eu terei apenas o coração e este poderá apodrecer.
então deveremos cuidar,
juntos,
como se fosse possível,

     e tornar-se-á.

e, quando abdicar ao trono,
já cansado dos dias,
governarás tu no meu lugar, e não mandarás em ninguém.
     as pessoas curvar-se-ão e tu te curvarás a todas elas,
     e ninguém se enforcará.
   
     depois deus vai descer e levá-los consigo.

poesia

fica inerente em nós
     o apreço pela vida
fica crucificantemente
como andar pelado
debaixo
     da escrita

fica imerso no intuito
a cadência
     o profundo
     fica o re-vinho reticencioso (a clausura no esquerdo
profundo do peito), fica o corcundo
profundo do espelho
     ficam as manchas
          .profundo e sem jeito.

fica passado a limpo o verso mais ínfimo
     mas toda poesia será sempre rascunho, por favor! não discorde

     mas toda poesia será sempre contigo. ou não será.

fica no ombro o desgaste da pena
não fica a caneta
     tudo será conforme antigamente, a pedra e o punho,
     mas que também não fica a limpo; só o fumo,

     fica a fumaça

e o fogo contenta a perder-se no ar puro.
fica a fumaça;
          você para mim

mas não fica o que
foste:

     fica-me a noite
     fica-me a noite
     fica-me a noite

 e nada permanecerá
   e nada comunicará
e nada se concluirá
  e nada de nada (nada)
     nadificar-se-á

     rascunho será;
     rascunho.

...

fica a rasura mas o resumo
só o mercúrio
do tempo
dirá.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

soneto para o meu amor nº 2

da minha dor eu te farei o meu sorriso
e dos espinhos que cravarem-se em teus pés
eu lhes farei da minha paz o mecanismo
e a carregar-te remarei no meu convés.

e a te guiar, pr'assim jamais perder-te o rumo,
do meu escudo eu te farei a ti a espada
e derretido o aço e a prata, a ti eu te juro,
eu te farei no torno d'água a ti a calma.

eu te farei do medo atroz não ter receio,
se assim fizer eu do meu sonho a ti recreio
e por esteio eu te firmar no mesmo andor.

e se não der, mas algo mais 'inda eu farei,
a tua cruz no ombro meu carregarei
pra em meu calvário eu ir feliz por ter-te o amor.